quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Taí mais uma crítica sobre meu espetáculo OS BOBOS DE SHAKESPEARE que já não existe mais, mas fez sua história, obrigado Ayrton

sábado, 5 de março de 2011

Os Bobos...: Shakespeare com algodão doce

Quanto menos você perguntar o que se passa em Os Bobos de Shakespeare melhor. O lúdico monólogo que o excelente Thadeu Peronne desenvolve em teatros e escolas é estranho a muitos adultos, mas, embora não seja infantil, é claríssimo a quem os degusta sensitivamente: as crianças.

O encenador Laércio Ruffa e o roteirista Edson Bueno costuram os personagens do autor inglês com luz mínima (do belo cenário de Paulinho Maia) e leveza de algodão doce. Quer entender melhor? Esqueça Shakespeare!

Perrone é um andarilho de idade incerta que se apropria de um baú tentando desvendá-lo. Sua curiosidade é alimentada por uma marionete imaginária. Juntos na voz do ator, ambos criam um lúdico e (intencionalmente) ininteligível diálogo que acentua a infantil curiosidade dos personagens.

A seguir, o monólogo traduz o catatau de personagens (Romeu, Otelo) para o carioca esperto, o bêbado, o cirandeiro músico nordestino, o apaixonado. Ao se despedir destes tipos, Perrone encontra a caveira que conversa com Hamlet e retoma o novelo que o conduz novamente ao andarilho.

Fiapos de outros teatros vêm à cena em Os Bobos de Shakespeare: os cabarés de A Dama da Noite e HamletMachine; a tradição nordestina (Solte o Boi na Rua) das peças de Ailton Silva, o “Caru”; e o marionete europeu adulto-intimista.

Há também saudades televisivas dos anos 80. Os primeiros movimentos têm os pés no videoclipe Thriller, um clássico de Michael Jackson: o ator-arlequim surge da fumaça com as pernas milimetricamente arqueadas. Há ainda o deboche politicamente incorreto de TV Pirata (citação à Stevie Wonder).

Com um perfeito domínio do teatro físico (rigor de todos os movimentos do ator, do pescoço ao tornozelo) e sem criar qualquer intervalo na passagem de um personagem para outro, Tadeu é um catalisador de extremos: o drama e a comédia; a vanguarda e o estabelecido; o popular interiorano e a metrópole sofisticada.

Se você é educador e confia na inteligência de seus alunos dê uma chance para Os Bobos de Shakespeare.

(Ayrton Baptista Junior)

Os Bobos de Shakespeare
Monólogo com Thadeu Perrone
Montagem da Serial Cômicos
Roteiro de Edson Bueno
Direção de Laércio Ruffa

*****

Escrito em 2007, para o Curitiba Interativa.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013



INFORMAÇÕES 041 96362133

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

NÚCLEO DRAMATURGIA SESI PARANÁ 

MOSTRA SESI DE DRAMATURGIA

Espetáculo EU GRITO QUE

Texto Anna Johann

Encenador Thadeu Peronne 

Elenco: Kenni Rogers, Vivian Schmitz, Murilo Lazarin, Ana Paula Taques,Andressa Portugal.

Operação de Sonoplastia:Flavio Ribeiro

Criação de Sonoplastia, cenário, e concepção geral Thadeu Peronne

 

O mundo fantasmagórico de humanos e inumanos

por Luciana Romagnolli
clique para ampliar clique para ampliarImagem (Foto: Cayo Vieira)
O mundo fantasmagórico evocado pela dramaturga Ana Johann e pelo encenador Thadeu Peronne no espetáculo “Eu Grito Que...” recria no palco a escuridão noturna de um cemitério: local tomado como limbo entre o mundo dos vivos e o dos mortos. Não só onde mães e viúvas pranteiam sobre tumbas nem só encontro de almas penadas. O singular da obra é fazer desse um espaço para dar voz ao recém-morto e ao susto de sua condição.
Ao apreender os instantes finais de uma consciência ainda moldada por padrões humanos, mas prestes a se liquefazer entre as carnes putrescentes, a dramaturgia enfrenta o horror ao cadáver – próprio ao homem da crença (aquele que nega a podridão com imagens sublimes) e ao homem da tautologia (o que se satisfaz em não ver além da materialidade), como notou o filósofo francês Didi-Huberman.
Para isso, recorre a um contraponto infantil, cuja inocência exacerba o contraste com a crueza (ou crueldade) da morte. Uma criança surge como personagem, assim como duas mulheres e mãe, ao lado de formas inumanas (o grito, o saber) coerentes com a passagem do ser ao não ser proposta na situação teatral.
A direção opera uma inversão: corporifica o grito na figura de uma atriz de baixa estatura presa ao elástico, enquanto desmaterializa a criança de quem só se ouve, justamente, o grito. Trata-se de uma estratégia ambígua de vincular o que poderia ser lido como partes divididas de um mesmo ser, mas sem fechar os sentidos dessa leitura.
A mistura de referências humanas às inumanas configura um espaço de estranheza e de obscuridade. Por não saber as leis que o regem, o espectador é surpreendido pelas curvas que estados emocionais inesperados traçam na dramaturgia, bordejando pelo cômico e pelo trágico. Assim funcionam, por exemplo, a trajetória de desapego dos bens materiais até a desintegração de uma das mulheres; a leviandade de outra personagem que desata em violência; e as constatações da morta recente.
Ana Johann dosa as sugestões ofertadas nas falas, de modo a mais intrigar o espectador, que vai construindo paulatinamente sua compreensão do que vê. Na direção, Thadeu Peronne trabalha com os atores distintas modulações vocais, que distinguem e particularizam os seres em cena, dando vida ao texto nas falas. E elabora imagens poderosas de figuras humanas esticadas.
A ausência de um desenho de luz determinado impede que tais imagens ganhem mais potência. Porém, ao entregar uma lanterna a alguns espectadores na entrada do teatro, sem maiores orientações sobre seu uso, o diretor abre possibilidades para uma experiência distinta de iluminação e de expectação: a luz sai do âmbito estético para se tornar um elemento dramatúrgico, mais especificamente, de uma dramaturgia do espectador.
Esta proposta alarga a ideia do teórico argentino J. Dubatti de que cabe ao espectador a criação receptiva e, ao artista, a criação produtiva do espetáculo, permitindo a parte do público momentos de criação produtiva, sim, na decisão de quando, como e o que iluminar da cena. Ação que reforça a experiência sensorial associada à noite no cemitério: de escuridão e de desbravamento do oculto.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

COLD MEAT PARTY - FESTA DO PRESUNTO
Crítica de Annalice Del Vecchio para Caderno G Gazeta do Povo
Dir. Thadeu Peronne e Mazé Portugal
2009

“O texto é ousado e desfere agulhadas certeiras em comportamentos conservadores em relação ao sexo, ao homossexualismo e a doenças como a aids e o câncer. Com uma sintonia impressionante, os atores enfrentam o desafio
de subverter a velha moral, apelando para diálogos rápidos, ácidos e, ao mesmo tempo, intensos. (…) não falta criatividade e ousadia na composição das cenas, na escolha da trilha sonora (com músicas dos anos 80) e do belíssimo cenário. “
Annalice Del Vecchio para o Caderno G, Gazeta do Povo 2009
http://cacilda.folha.blog.uol.com.br/arch2009-01-25_2009-01-31.html#2009_01-31_10_21_21-11668060-0

FESTIVAL DÁ VISIBILIDADE A PESQUISA TEATRAL
  Em meio à profusão de propostas do Festival de Curitiba, duas se destacam, ilustrando o que de melhor se espera daquele que se apresenta como "o maior evento das artes cênicas brasileiras". Antes de tudo, por atrair grupos do Brasil inteiro, aqui se espera encontrar notícias de grupos "fora do eixo" que dêem provas de maturidade e competência em contar sua cidade para o mundo. Neste quesito, este ano se destacou o Coletivo Angu de Teatro, de Recife, com o espetáculo "Angu de Sangue".
Alinhavo de contos de Marcelino Freire, transformados em dez monólogos interligados por recursos diversos um pouco a esmo – cantos, projeção de vídeo, teatro de animação – o espetáculo atinge um resultado marcante por várias razões. Primeiro, o texto de Freire tem um humor certeiro e cruel, que expõe a intimidade de Recife como um espelho do país: uma miséria que se insurge orgulhosa, quase triunfante, contra uma ambígua classe média. O diretor Marcondes Lima soube dar uma uniformidade ao elenco, sem espaços para estrelismos, dando assim solidez ao grupo, no qual no entanto se destaca o grande carisma de Gheuza Sena.
Tateante às vezes, há no espetáculo cenas antológicas como o estupro de uma criança narrado através de uma manipulação de boneco, com grande força e delicadeza. Assim, com a inventividade da encenação amenizando a dor do contato com o real, e o humor do texto afiado como um bisturi, a pústula da miséria irrompe como uma epifania.
Em outro quesito, o Festival possibilita que atores que estudam uma linha de pesquisa com paciência e abnegação consigam um momento de visibilidade. É o caso de Thadeu Peronne, ator premiado em Curitiba que foi se lapidando no teatro de rua, na commedia dell’arte e no CPT de Antunes Filho. Em "Os Bobos de Shakespeare", aproveita um texto bastante simples, quase uma antologia de frases, para propor uma reatualização da ancestral técnica do bobo – um fascinante subuniverso da obra shakespeareana, entre clown, mais elaborado, e o bufão, mais cruel.
Logo no início, mostra que domina a técnica do gromelot, língua imaginária, espécie de retórica abstrata que prepara a platéia para os floreios do texto. Em seguida, busca a forma mais adequada para o conteúdo de cada citação, indo do arquétipo do coringa do baralho até os bobos contemporâneos. Entre eles, faz uma rápida e respeitosa menção à figura da dragqueen, em um personagem feito sem deboche fácil, mas que acaba ‘vazando’ para as outras caracterizações. Com uma direção limpa, embora um pouco ingênua, e maquiagem premiada, é um espetáculo que merece atenção, pela seriedade da pesquisa.



Escrito por Sérgio às 12h20
[
(